terça-feira, 13 de outubro de 2009
Férias Psicodélicas
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
O TEMPO DA VERTIGEM
domingo, 30 de agosto de 2009
NÃO SOU EU

quinta-feira, 13 de agosto de 2009
CLARISSE

Gosto de ver você saindo pela porta. Pelo olho mágico lhe vejo dobrando o corredor, e quando você chega, lá estou eu, no olho mágico, que não deve ter este nome à toa, lhe esperando, observando o seu passo embriagado e a sua mão trêmula catando a chave no bolso da calça surrada. Então você entra e quer me beijar, mas eu sei que sua boca está suja como uma latrina, grudenta com a porra que você acabou de deleitar-se, então eu resisto, quero apenas o seu corpo, e não importa o quanto ele esteja sujo, eu o lambo por inteiro, só não quero a sua boca, use-a para me contar tudo, suas perversões e suas façanhas, é este o seu feitiço, o que me faz querer que você volte todos os dias, com a boca suja e o bolso cheio, eu não me importo, nós sabemos que você não precisaria fazer isso, mas é a sua vontade, não seria você se não fizesse, e confesso que também gosto de vê-la surrada no final da noite, mesmo esgotada você me esgota, com o corpo e com as palavras que saem da sua boca melecada.
Mas então Clarisse, você disse que iria embora, mudar de vida, e eu tive de fazer isso com você. Não houve alternativa, você jamais iria entender que nenhum outro lugar do mundo combina com você, como aquele corredor visto pelo olho mágico, quando você chegava com seu passo torto, e eu a observava Clarisse, tenha certeza disso. Esperava por você, entre um gole e outro de rum, assistindo aqueles filmes bregas que passam durante a madrugada, e pensando o que você estaria fazendo com todos aqueles homens, nas suas línguas, e na sua língua. Agora Clarisse, tenho você só para mim, aqui deitada na cama, nua e de olhos abertos, não tenho mais receio de beijá-la, e nem me incomodo com o frio do seu corpo, eu a esquento com o meu, e será assim, pelo menos por enquanto, por mais um dia talvez, até que seu corpo não resista e comece a se decompor. Então Clarisse, eu terei de arrumar outra Clarisse, como tantas que já tive e que acabaram assim, felizes como você.
Eu gosto de lambê-la assim, com o corpo frio, dá um calafrio na língua, sabia? Mas sabe Clarisse, sinto falta da sua conversa, do seu jeito estranho de me contar as coisas, muito diferente da minha última Clarisse, que apenas me contava o que eu já sabia, não dava os detalhes, era egoísta na conversa, como quem quer guardar as coisas só na lembrança, deixando-me de fora do principal, tinha que me contentar apenas com seus lindos olhos safados, que embora dissessem muitas coisas, não tinham a voz, a entonação que você dava as suas histórias Clarisse. Não foi a toa que tive de esfriá-la bem mais cedo que você. Se você não tivesse vindo com este papo de ir embora, provavelmente iria poder se divertir por mais algumas semanas, talvez até um mês, mas passado esse tempo, eu teria de esfriá-la também... Não por sua culpa, é que eu enjôo fácil, gostaria que você entendesse isso. O olho mágico estava prestes a perder o seu encanto, e eu sentia isso, Clarisse. E quando a mágica do olho se perde, não há mais sentido em continuarmos, e eu sentia isso, dia após dia, a mágica indo embora, aos poucos, como a poça que vai secando na calçada, após um belo dia de chuva, e nós gostávamos dos dias de chuva não é mesmo Clarisse?!
Hoje teremos nossa última noite de luxúria, e será uma noite e tanto, se você não estivesse fria desta maneira iria compreender bem o que lhe digo. Não é difícil sentir. Basta não estar frio, e deixar que o corpo diga mais que sua mente, se entregar ao toque, e agora você está totalmente entregue Clarisse! Por outro lado, você está fria e estas duas coisas não combinam. Amanhã pela manhã te levarei ao lago, onde você tanto gostava de ir, lembra?! Só que fria desta forma você não terá como sentir, como dar aquelas gargalhadas que surgiam sem nenhuma razão. Não. Amanhã você irá afundar na água, que estará fria como você, e se juntará as minhas tantas outras Clarisses que lá estão, será mais uma sereia, com a pedra presa na sua perna pela grossa corrente, selando de forma definitiva o nosso amor, e eu estarei lá, observando você afundar, como a observava no olho mágico, quando você chegava em casa, com seu passo torto.


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