terça-feira, 13 de outubro de 2009

Férias Psicodélicas


O escrivinhador do Sarapatel estava muito cansado, então resolveu sofrer um pouco numa praia paradisíaca por algumas semanas. Mas nem adianta soltarem fogos de artifício, pois logo estarei de volta, mais psicodélico que nunca.


Abraço e até mais!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O TEMPO DA VERTIGEM


Nunca dominei a arte de observar sem ser notado. Os estranhos desconfiam. Podem ter me visto, ficarei aqui. Não, não viram. Será um sonho?! Como sentir a realidade? Em ambos a aflição é real. Ilusão e realidade confundem-se, são dois corpos maleados no desafogo turvo do desejo, só os tolos não percebem isso. Vejo o rato passando. Um rato gordo, com dentes cor de pérola afiados. Me olha e diz: “Porque não vai embora?” É ardiloso, astuto demais para um rato, mas gosto da sua idéia. Quero mesmo transpor o obscuro do meu domínio, seguir o ritmo do corpo, a grande ampulheta por onde escorre silencioso o sangue, esgotando o tempo em mim mesmo. Aqui fora vivo o tempo do sonho, tempo dos estranhos. Quero sentir a textura da realidade, mas como tatear as coisas que não alcanço? Vejo passar a garota indo à igreja, com seu passo curto e olhar descorado. Ela não gosta de mim, nem eu dela. Porque não nos casamos?! Seriamos felizes; a alegria opaca dos narcotizados pela convenção asséptica. No chão há um buraco. Coloco a cara e encaixo o olho. Dentro vejo um morcego sendo devorado pelas formigas. Elas são sofisticadas, comem com talheres. Talheres de bambu. Me enxergam? Penso que não, sou transparente. Ergo os olhos e vejo os estranhos. Andam rápido, em círculos, buscando a vertigem. Melhor assim. O sossego dos parados me intimida, o silêncio sempre esconde um estrondo de angústia. Será real?! Talvez seja melhor jogar-me ao chão e deslizar como uma serpente. E pra onde? Não sei. O rato gordo passa com suas pérolas pontiagudas e diz: “Porque se arrasta assim, como um fraco?"
-Porque agora sou serpente!
Num movimento ágil o abocanho, roço o chão e sinto a convulsão do rato que se contorce entre meus dentes. Volto os olhos pra cima e vejo o campanário. Se fosse padre me masturbaria religiosamente, em meu ritual todo humano, ouvindo a lascívia não saciada, confessa pela virgem que quer ser puta. Mas ainda estou aqui, rastejando com o rato convulso entre os dentes. É a realidade? Não nos é permitido saber. O real trai o calor dos olhares ingênuos, é como catar a veia com as mãos trêmulas, na cegueira mórbida da seringa elétrica. Cadê os estranhos? Ainda em círculos, com seus ternos brancos e cabeças comidas. Levanto. Não sou serpente, sou homem. Homem transparente. Ainda sinto o sangue do rato na boca. É viscoso e quente, com gosto de pus e cheiro de mijo. Olho a cidade distante. Sempre a vi à distância, mesmo estando enfiado nela. Santo Ângelo! Você nunca me enganou! Não gosto dos seus robôs dançarinos, nem das gaiolas desfilando nas ruas, com seus pássaros amestrados sendo sugados pelas pulgas e dos sorrisos apertados enfeitando as suas caras mortas, nem dos seus bonecos de cera que derretem com a faísca fraca dos olhares acesos! Talvez algum dia ainda nos suportaremos, como velhos inimigos, que por desfecho funesto do destino, compartilham  escarros fétidos no mesmo leito fúnebre. Mas hoje não. Prefiro o lado de fora da cela, aqui é frio, mas a fúria me aquece, é a chama lúcida da minha mente excitada. As coisas podem ser claras, mas as vejo cinza. Chegará o dia em que, sombrosas, desvelarão seu brilho. Retorno aos estranhos e seus círculos, como relógios que andam ao contrário, marcando o tempo certo que não vivi. Volto o olho ao buraco. As formigas agitam-se no compasso tresloucado de algum ritual xamânico; o ritmo epiléptico dos que refutam a superfície e gracejam a franqueza subterrânea. Será real aquilo que, mesmo vendo, não acredito? Será a realidade uma crença? Sigo acreditando nos estranhos, em seus ternos brancos e suas cabeças comidas, enquanto espero a queda da noite, com o céu coalhado de estrelas mortas, e o mundo, perverso como ele só, ejaculará o vento em minha cara, soprando um vendaval de ilusão e realidade. Melhor dissimular. Os estranhos continuam lá, em seus círculos, e a vertigem logo chegará, junto com a surda tempestade.

domingo, 30 de agosto de 2009

NÃO SOU EU



Começou numa quinta-feira. Eu saí pra comprar pão. Não gosto de pão, mas compro mesmo assim. A padaria estava cheia. Na volta comecei a perceber. No reflexo do vidro dos carros, nas vitrines. Não dei bola. Lembro do sonho que tive aquela noite. Eu era um espantalho, mas os pássaros não tinham medo de mim. Quando cheguei em casa deixei o pão na mesa e fui até o quarto. Olhei pro espelho e não me vi, enxerguei outra pessoa. As feições, os traços, a cor dos cabelos, era outro sujeito, completamente diferente de mim. Talvez a idade fosse a mesma, mas de resto, nenhuma semelhança. Só as roupas eram iguais. Os pássaros me cercavam e eram agressivos, então eu, que era espantalho, gritava como nunca gritei antes. Sem saber o que estava acontecendo, olhava pro espelho sem entender nada. Não havia nada a ser entendido, eu era outra pessoa e só. Encarava o reflexo e ele retribuía da mesma forma, mas com outra face. Permaneci por alguns instantes neste jogo, olhando o reflexo que já não era o meu. Tentei trocar de espelho. Fui até o banheiro e não deu outra: meu reflexo continuava lá, completamente diferente de mim. Lembro que não chorei no enterro da minha mãe, e ela sabe muito bem por quê. Eu também sei. Aquela estranha situação, de me ver como não era me deixou confuso. Os espelhos refletiam todos os meus gestos, expressões e movimentos, mas o sujeito refletido não era eu. Comecei a evitar os espelhos, cobri-los com jornal. Eu queria me ver, mas só via aquele farsante, a imagem de alguém que não conhecia. Com os espelhos cobertos tentei retomar minha rotina, mas eu só podia cobrir os espelhos de casa, na rua estava exposto. Por onde andasse sempre me deparava com aquele reflexo, me seguindo como uma sombra, só que uma sombra que não era a minha. Então resolvi ignorar aquele espectro que insistia em aparecer, simplesmente virava o rosto, mas por alguns milésimos de segundo eu o via, até conseguir virar a cara para o outro lado, e aquele ínfimo espaço de tempo era suficiente para saber que ele estava lá, refletindo meu olhar. Eu, que era espantalho, gritava, mas os pássaros não ouviam. Todas as minhas tentativas de evitar me ver num reflexo que não era meu fracassaram. Sempre sobrava uma fenda, um espaço por onde o invasor da minha imagem se mostrava. Não havia como escondê-lo de mim mesmo. Minha mãe foi coberta de terra e mesmo assim está sempre ao meu redor. Às vezes visito o túmulo e sinto um alívio por ela estar lá, mas na verdade ela está sempre ao meu lado, presa na minha memória e sem chance de sair. Com o tempo percebi que era inútil fugir daquele reflexo farsante. Tirei os jornais do espelho e deixei que ele se mostrasse para mim. Comecei a observá-lo, ficava na sua frente, até que descobri uma falha: eu aparecia na frente dele e trocava de roupa rápido, fora do seu campo de visão, então aparecia novamente. Ele continuava com a mesma roupa de antes! Assim ele tornava-se completamente diferente de mim, pelo menos naqueles poucos instantes até a imagem corrigir-se e voltar a reproduzir minha roupa naquele sujeito estranho. E eu fazia esse jogo com muita frequência. Os pássaros me atacavam, mas parado, como espantalho que era, eu nada podia fazer a não ser gritar, e o grito é o gozo do desespero, então eu gritava. A visão do estranho no espelho se tornou tão familiar que até esqueci como era meu rosto, então eu recorria às fotos, mas minha face estava sempre borrada, desfigurada, como ficou a cara da minha mãe quando lhe acertei com a pá. Era uma quinta-feira, lembro bem. O sujeito que tomou a minha imagem nos espelhos não estava mais me incomodando, a única coisa que eu sentia era indiferença, mas ele estava sempre lá, me observando, quando por descuido me dava conta da sua presença. Os pássaros me atacavam, mas nada podia ser feito, eu, que era espantalho, calei-me e fiquei inerte, conformado com o desfecho inevitável. Lembro que naquela quinta-feira minha mãe pediu que comprasse pão. Resolvi encarar o espectro de frente. Parei na frente do espelho e fiquei observando o reflexo que não era eu, ao mesmo tempo em que ele me observa. Ficamos assim, neste jogo de olhares por um longo tempo. Ele tinha a mesma altura, tipo físico, mas não era parecido comigo. De repente comecei a sentir uma sensação estranha, seus olhos ficaram fixos nos meus e eu não conseguia desviar o olhar, foi quando senti uma forte náusea, e lá, no fundo dos olhos do reflexo intruso, eu enxerguei que não era espantalho, mas sim os pássaros que lhe atacavam, era uma quinta-feira e vi que o estranho na verdade era eu.





quinta-feira, 13 de agosto de 2009

CLARISSE



Gosto de ver você saindo pela porta. Pelo olho mágico lhe vejo dobrando o corredor, e quando você chega, lá estou eu, no olho mágico, que não deve ter este nome à toa, lhe esperando, observando o seu passo embriagado e a sua mão trêmula catando a chave no bolso da calça surrada. Então você entra e quer me beijar, mas eu sei que sua boca está suja como uma latrina, grudenta com a porra que você acabou de deleitar-se, então eu resisto, quero apenas o seu corpo, e não importa o quanto ele esteja sujo, eu o lambo por inteiro, só não quero a sua boca, use-a para me contar tudo, suas perversões e suas façanhas, é este o seu feitiço, o que me faz querer que você volte todos os dias, com a boca suja e o bolso cheio, eu não me importo, nós sabemos que você não precisaria fazer isso, mas é a sua vontade, não seria você se não fizesse, e confesso que também gosto de vê-la surrada no final da noite, mesmo esgotada você me esgota, com o corpo e com as palavras que saem da sua boca melecada.

Mas então Clarisse, você disse que iria embora, mudar de vida, e eu tive de fazer isso com você. Não houve alternativa, você jamais iria entender que nenhum outro lugar do mundo combina com você, como aquele corredor visto pelo olho mágico, quando você chegava com seu passo torto, e eu a observava Clarisse, tenha certeza disso. Esperava por você, entre um gole e outro de rum, assistindo aqueles filmes bregas que passam durante a madrugada, e pensando o que você estaria fazendo com todos aqueles homens, nas suas línguas, e na sua língua. Agora Clarisse, tenho você só para mim, aqui deitada na cama, nua e de olhos abertos, não tenho mais receio de beijá-la, e nem me incomodo com o frio do seu corpo, eu a esquento com o meu, e será assim, pelo menos por enquanto, por mais um dia talvez, até que seu corpo não resista e comece a se decompor. Então Clarisse, eu terei de arrumar outra Clarisse, como tantas que já tive e que acabaram assim, felizes como você.

Eu gosto de lambê-la assim, com o corpo frio, dá um calafrio na língua, sabia? Mas sabe Clarisse, sinto falta da sua conversa, do seu jeito estranho de me contar as coisas, muito diferente da minha última Clarisse, que apenas me contava o que eu já sabia, não dava os detalhes, era egoísta na conversa, como quem quer guardar as coisas só na lembrança, deixando-me de fora do principal, tinha que me contentar apenas com seus lindos olhos safados, que embora dissessem muitas coisas, não tinham a voz, a entonação que você dava as suas histórias Clarisse. Não foi a toa que tive de esfriá-la bem mais cedo que você. Se você não tivesse vindo com este papo de ir embora, provavelmente iria poder se divertir por mais algumas semanas, talvez até um mês, mas passado esse tempo, eu teria de esfriá-la também... Não por sua culpa, é que eu enjôo fácil, gostaria que você entendesse isso. O olho mágico estava prestes a perder o seu encanto, e eu sentia isso, Clarisse. E quando a mágica do olho se perde, não há mais sentido em continuarmos, e eu sentia isso, dia após dia, a mágica indo embora, aos poucos, como a poça que vai secando na calçada, após um belo dia de chuva, e nós gostávamos dos dias de chuva não é mesmo Clarisse?!

Hoje teremos nossa última noite de luxúria, e será uma noite e tanto, se você não estivesse fria desta maneira iria compreender bem o que lhe digo. Não é difícil sentir. Basta não estar frio, e deixar que o corpo diga mais que sua mente, se entregar ao toque, e agora você está totalmente entregue Clarisse! Por outro lado, você está fria e estas duas coisas não combinam. Amanhã pela manhã te levarei ao lago, onde você tanto gostava de ir, lembra?! Só que fria desta forma você não terá como sentir, como dar aquelas gargalhadas que surgiam sem nenhuma razão. Não. Amanhã você irá afundar na água, que estará fria como você, e se juntará as minhas tantas outras Clarisses que lá estão, será mais uma sereia, com a pedra presa na sua perna pela grossa corrente, selando de forma definitiva o nosso amor, e eu estarei lá, observando você afundar, como a observava no olho mágico, quando você chegava em casa, com seu passo torto.